Sempre que alguém descobre que escrevo, a pergunta vem acompanhada de um ar quase confidencial: “E de onde você tira as ideias?”
Confesso que demorei para formular uma resposta com a qual me identificasse. Hoje, a mais honesta que encontrei é simples: as ideias não vêm de um lugar — elas vêm de todos os lugares.
Uma sugestão de amigo, por exemplo. Foi assim que nasceu uma das aventuras mais divertidas da minha vida de escritora: em 2023, um amigo jornalista me provocou com a ideia de escrever contos em que os protagonistas fossem objetos inanimados. Transformei a provocação em desafio — uma história por dia, durante um ano. Não consegui os 365, mas desses sessenta e poucos textos arranhados pela tentativa, vinte e um viraram o livro NEM TE CONTO, lançado em 2024. A esponja verde-amarela da pia, os biscoitos que disputam a honra de ser o último do pacote, o barbeador de um ator consagrado: nada disso veio de uma musa inspiradora descendo do céu. Veio da minha cozinha, do meu dia a dia, das minhas lembranças.
E talvez seja esse o segredo que ninguém conta: não existe ideia vazia — existe olhar ocupado demais para notar o que está na frente dos olhos.
As vivências, claro, são a fonte mais rica. Cada experiência vivida carrega textura, cheiro, emoção — ingredientes que nenhuma pesquisa substitui. Mas as notícias do dia também alimentam a escrita: um fato que nos comove, que nos irrita, que nos faz suspirar. O mundo lá fora se infiltra no que escrevemos, mesmo quando escrevemos sobre uma botinha de Pedro Álvares Cabral ou o relógio de pulso de Santos Dumont.
E há a curiosidade, talvez a matéria-prima mais valiosa de todas. É a curiosidade que me faz parar e perguntar: como seria a vida do espelho da sala de jantar, testemunha silenciosa de tantas conversas de família? O que pensam os sinos da matriz, que marcam o tempo de uma cidade inteira? Quem me garante que um porta-retrato sem função na parede não tenha sentimentos sobre isso?
Escrever, para mim, sempre foi isso: prestar atenção aos fatos do cotidiano e permitir que eles ganhem voz. Nada de temas grandiosos ou exóticos. A vida ordinária — a pia da cozinha, o jogo de tabuleiro esquecido na gaveta, a peça que sobrou — é um território infinito quando olhamos com atenção.
E olhar com atenção é algo que aprendemos, ou aprendemos a re-aprender, justamente quando amadurecemos. Há uma riqueza acumulada em quem já viveu muitos ciclos: memórias guardadas, observações finas, uma intimidade com o tempo que a pressa da juventude não permite. A maturidade não esvazia a criatividade — ela a profundiza. Quem tem mais vivência tem mais matéria-prima.
Por isso, faço aqui o convite que faço em todos os meus encontros:
Observe hoje um objeto da sua casa. Escolha um só — o mais banal possível — e se pergunte: se ele pudesse falar, o que contaria sobre você? Sobre a sua rotina, as suas manias, a sua história?
Você vai descobrir que as ideias estavam ali o tempo todo, esperando apenas o seu olhar. E quem sabe essa pequena atenção não desperte uma escrita que você nem sabia que morava em você — como aconteceu comigo, de um desafio impossível a um livro nas mãos.
Afinal, todos nós temos histórias para contar. Os objetos, os dias, as vidas. Só precisamos parar o suficiente para escutá-las.
E você — já parou para pensar o que aquele objeto do seu dia a dia teria a dizer?
- Imagem corrigida por IA
